sábado, 8 de março de 2008

Banhos de sangue aos magotes

Eles nem fixavam os nomes, simplesmente fixavam cotas de mortes aos milhares. A 2 de Julho de 1937, o Politiburo ordenou que os secretários locais prendessem e fuzilassem "os elementos anti-soviéticos mais hostis" que deveriam ser sentenciados por troikas, tribunas de três homens que incluíam usualmente o secretário do partido, o procurador e o chefe da NKVD local.

O objetivo era "acabar de uma vez por todas" com todos os inimigos e com aqueles impossíveis de educar no socialismo, de modo a acelerar o desaparecimento das barreiras de classe e, portanto, a instauração do paraíso para as massas. Essa solução final era um massacre que fazia sentido em termos da fé e do idealismo do bolchevismo, que era uma religião baseada na destruição sistemática das classes. O princípio de ordenar o assassinato como cotas industriais do Plano Quinquenal era, portanto, natural. Os detalhes não importavam: se a destruição dos judeus por Hitler foi genocídio, então aquilo foi democídio, a luta de classes de transformando em canibalismo. A 30 de julho, Iejov e seu adjunto, Mikhail Frinovisk, propuseram a Ordem nº 00447 ao Politiburo: que, entre 5 e 15 de agosto, as regiões deveriam receber cotas para duas categorias: Categoria Um, fuzilamento: Categoria Dois, deportação. Eles sugeriram que 72 950 deveriam ser fuziladas e 249 450 presos, embora não incluíssem algumas regiões. As regiões deveriam apredentar mais listas. As famílias dessas pessoas deveriam ser deportadas também. O politiburo confirmou essa ordem no dia seguinte.

Não demorou para que esse "moedor de carne" adquirisse tal impulso que, conforme a caça às bruxas se aproximava de seu auge de ciúmes e as ambições locais se atiçavam, cada vez mais gente era jogada na máquina. As coras eram logo cumpridas pelas regiões, que pediram então números maiores: entre 28 de agosto e 15 de dezembro, o Politiburo concordou com o fuzilamento de outras 22 500 pessoas e, depois, com mais 48 mil. Nisso o Terror foi diferente dos crimes de Hitler, que destruíram sistematicamente um alvo limitado: judeus e ciganos. Na Rússia, ao contrário, a morte era, às vezes, aleatória: o comentário esquecido há muito tempo, o flerte com a oposição, a inveja do emprego, da mulher ou da casa de outro homem, vingança ou simplesmente pura coincidência causaram a morte e a tortura de famílias inteiras. Isso não importava: "Melhor ir çonge demais do que não ir o suficiente", disse Iejov a seus homens, enquanto a cota original de prisões da Ordem 00447 inflava de 767 397 prisões e 386 798 execuções.

Ao mesmo tempo, Iejov atacava "contingentes nacionais", ou seja, a execução por nacionalidade, contra poloneses e alemães que viviam na Rússia, entre outros. A 11 de agosto, ele assinou a Ordem nº 00485, para liquidar "diversionistas e grupos de espionagem poloneses", a qual consumiria a maior parte do Partido Comunista Polonês, a maioria dos poloneses no interior da liderança bolchevique, qualquer um que tivesse "contatos consulares" ou sociais e, é claro, suas esposas e filhos. Cerca de 350 mil pessoas (das quais 144 mil poloneses) foram presas nessa operação, com 247 157 fuzilados (110 mil poloneses) - minigenocídio. No total, pelas últimas estimativas, combinando as cotas e os contingentes nacionais, um milhão e meio foram presos nessas operações e cerca de 700 mil fuzilados.

Trecho de Stálin - A corte do czar vermelho, de Montefiore.

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