sábado, 27 de março de 2010

POESIA

Minuano

Augusto Meyer



Esse vento faz pensar no campo, meus amigos,
Esse vento vem de longe, vem do pampa e do céu.

Olá comprade, levanta a poeira em corrupios,
Assobie e zune encanado na aba do chapéu.

Curvo, o chorão arrepia a grenha fofa,
Giram na dança de roda as folhas mortas
Chaminés botam fumaça horizontal ao sopro louro
E a vaia fina fura a frincha das portas.

Olá compadre, mais altoi, mais alto!

As ondas roxas do rio rolando a espuma
batem nas pedras da praia o tapa claro...
Esfarrapadas nuvens nuvens galopeiam
No céu gelado, altura azul.

Este vento macho é um batismo de orgulho.
Quando passa lava a cara, enfuna o peito,
Varre a cidade onde eu nasci sobre a coxilha.

Não sou daqui, sou lá de fora...
Ouço meu grito gritar na voz do vento:
-- Mano poeta, se enganche na minha garupa!

Comedor de horizontes,
Meu compadre andarengo, entra!

Que bem me faz o teu galope de três dias
Quando se atufa zunindo na noite gelada...

Ó mano
Minuano
Upa upa
Na garupa!

Casuarinas cinamomos pinhais
Largo lamento gemido imenso, vento!
Minha infância tem a voz do vento virgem:
Ele ventava sobre o rancho onde morei.

Todas as vozes numa voz, todas as dores numa dor,
Todas as raivas na raiva do meu vento!
Que bem me faz! mais alto, compadre!
Derruba a casa! me leva junto! eu quero o longe!
Não sou daqui, sou lá de fora, ouve meu grito!

Eu sou irmão das solidões sem sentido...
Upa upa sobre o pampa e sobre o mar...

Professores queimando livros























Nem sei o que dizer...

sexta-feira, 26 de março de 2010

Os Mortos No Oriente Médio Valem Mais Que Os Outros?




Um valioso levantamento, publicado no site Open Democracy, mostra que o conflito entre israelenses e palestinos recebe atenção desproporcional da mídia em relação a outros confrontos, muito mais sangrentos e devastadores, sobretudo na África.

O texto, de Noah Bernstein, começa com um exemplo eloquente. Em dois dias de dezembro de 2008, o Exército de Resistência do Senhor (
cristão fundamentalista) matou e mutilou 200 civis congoleses. O grupo“estuprou mulheres e meninas, quebrou o pescoço de bebês e cortou lábios e orelhas daqueles que não matou”. Nos mesmos dois dias, o cessar-fogo entre Israel e Hamas estava por um fio. De acordo com o World Press Tracker, que mensura a cobertura da imprensa mundial sobre conflitos e emergência humanitárias, as 48 horas do impasse israelo-palestino foram noticiadas 40 vezes; já o massacre no Congo não foi sequer mencionado. Nas três semanas seguintes, a invasão israelense de Gaza deixou 926 palestinos e três israelenses mortos, notícia reportada 2.896 vezes pela mídia. Enquanto isso, no mesmo período, o Exército de Resistência do Senhor matou 865 civis e seqüestrou 160 crianças – e esses acontecimentos apareceram apenas 20 vezes na imprensa.

“O fascínio da mídia ocidental com o conflito israelo-palestino ofusca a morte e a opressão em outras partes do mundo. Gilad Shalit (soldado israelense seqüestrado pelo Hamas) e os foguetes Qassam são familiares para muita gente; a morte de 5,9 milhões de pessoas na Segunda Guerra do Congo não”, escreve Bernstein, que constata: muitos questionam a cobertura enviesada no Oriente Médio, ora a favor de israelenses, ora a favor de palestinos, mas pouca gente critica a primazia dada ao conflito no Oriente Médio na cobertura jornalística das guerras.

Os argumentos para justificar a atenção excessiva dada ao Oriente Médio variam. O primeiro deles é que o Ocidente se considera moralmente responsável pelo que acontece na região, já que ajudou a fundar um país para abrigar uma minoria perseguida (
os judeus) e acabou criando outra minoria perseguida (os palestinos). Mas, como explica Bernstein, a questão da Caxemira, problema igualmente “criado” pela ONU, na descolonização de Índia e Paquistão, matou dez vezes mais gente que o conflito israelo-palestino e merece atenção muito menor. O mesmo se dá com disputas territoriais na África significativamente mais sangrentas, também como resultado do desmonte do mundo colonial ocidental, e que não freqüentam os jornais.

Outro argumento usado é o tamanho do sofrimento dos palestinos, que teria caráter excepcional e é geralmente qualificado de
“genocídio” pelos críticos do Ocidente. Mas uma olhada no mapa da África e da Ásia mostra uma situação desesperadora de milhões de refugiados que, no entanto, mal aparecem no noticiário. Como mostra Bernstein, só o conflito no Sri Lanka matou 50 vezes mais civis que o israelo-palestino desde 1980; no já citado Congo, o número é 5.000 vezes maior. Além disso, a qualidade de vida dos palestinos é bem melhor do que a média desses outros povos oprimidos – a expectativa de vida é de 73,3 anos, o índice de alfabetizados chega a 93,8%, e a desnutrição infantil atinge apenas 3%, números melhores que os do Brasil e que estão no nível dos países que têm “alto desenvolvimento humano” em medição da ONU. Nada disso parece traduzir um “genocídio”.

A justiça da luta nacional palestina, após quatro décadas de ocupação israelense, é outro ponto que ajuda a catapultar o Oriente Médio às manchetes. No entanto, o mundo está cheio de lutas nacionais, ignoradas ou negligenciadas pela mídia. Há os casos óbvios do Tibete, com mais de 1 milhão de mortos desde 1959, e o da Tchetchênia, com 60 mil civis mortos desde 1994, que só aparecem de vez em quando no noticiário. E há casos absurdos como o do Saara Ocidental, ex-colônia espanhola invadida pelo Marrocos, cujo Exército reprime o movimento independentista local. Há até um muro de separação, tal como na Cisjordânia. No entanto, o Saara Ocidental apareceu três vezes na mídia ocidental ao longo de 2009, e isso porque havia um ativista em greve de fome num aeroporto.

A intensidade da atenção dada ao que ocorre no Oriente Médio tem efeitos perversos – e o principal deles é que tanto Israel quanto os palestinos recebem ajuda desproporcional às suas necessidades e mesmo em relação ao resto do mundo. Em 2006, mostra Bernstein, 12% de toda a ajuda externa dos EUA foi para Israel. Isso equivale à ajuda americana dada a todo o continente africano, fora o Egito. Já os refugiados palestinos receberam da ONU (vale dizer, dos EUA, seu principal financiador) US$ 72 per capita, enquanto refugiados do resto do mundo receberam US$ 53 per capita. E há uma agravante:
os palestinos são o único grupo de refugiados do mundo a ter uma agência da ONU só para eles, a UNRWA, coisa difícil de justificar. Por outro lado, fica fácil saber por que certos líderes palestinos e israelenses não querem que o conflito acabe: ele dá dinheiro.

Para Bernstein, a explicação mais evidente de toda essa distorção é o escopo do conflito israelo-palestino: ao contrário do que dão a entender os discursos e a retórica inflamada, a importância que se dá à crise do Oriente Médio tem a ver muito menos com questões humanitárias e muito mais com ideologia e geopolítica.

Diferentemente das guerras na Ásia ou na África, uma eventual guerra no Oriente Médio tem o potencial de escalar para uma conflagração mundial. O mais importante, porém, é que se trata da materialização do confronto do
“imperialismo ocidental” contra os “atrasados e opressores árabes”, dependendo de onde se olha. E isso faz a delícia da mídia e de seus consumidores.




Escrito por: Marcos Guterman - http://blogs.estadao.com.br/marcos-guterman
Publicado no site em: 22/03/2010

sábado, 13 de março de 2010

O Diabo mora no Vaticano, pertinho do Papa

Da BBC, citada pelo Globo:

O exorcista-chefe da Igreja Católica disse a um jornal italiano que "o Diabo reside no Vaticano" e que bispos estariam "ligados" a ele.

Em entrevista ao diário La Repubblica, o padre Gabriele Amorth, que comanda o departamento de exorcismo em Roma há 25 anos, disse que o ataque ao papa Bento XVI na noite de Natal e os escândalos de pedofilia e abuso sexual envolvendo sacerdotes seriam provas da influência maléfica do Demônio na Santa Sé e que "é possível ver as consequências disso".

O sacerdote, de 85 anos, disse ainda que há, na Igreja, "cardeais que não acreditam em Jesus e bispos ligados ao Demônio".

Amorth, que já teria realizado o exorcismo de 70 mil possuídos, publicou um livro no mês passado, chamado Memórias de um Exorcista, em que narra suas batalhas contra o mal.

A série de entrevistas que compõe o livro foi realizada pelo jornalista Marco Tosatti, que conversou com o programa de rádio Newshour da BBC.

Tosatti disse que o Diabo atua de duas formas. Na primeira, a mais ordinária, "ele te aconselha a se comportar mal, a fazer coisas ruins e até a cometer crimes".

Na segunda, "que ocorre muito raramente", ele pode possuir uma pessoa. Tosatti disse que, de acordo com Amorth, Adolf Hitler e os nazistas foram possuídos pelo capeta.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Lula apoiando Cuba

Os Parasitas

Os Parasitas - Guerra Junqueiro

No meio duma feira, uns poucos de palhaços
andavam a mostrar, em cima dum jumento
um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriôes, hipócritas, devassos,
exploravam assim a flor do sentimento,
e o monstro arregalava os grandes olhos baços,
uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,

eu lembrei-me de vós, funâmbulos da cruz,
que andais pelo universo, há mil e tantos anos,
exibindo, explorando o corpo de Jesus.

Colaboradores