domingo, 22 de agosto de 2010


É precisamente a possibilidade de uma escolha racional que define a liberdade; fora do espaço das justificativas válidas, encontramos apenas o capricho. Isso é também um princípio educativo: ao educar uma criança, percebemos como, antes da “idade da razão”, elas são contraditórias. Querem realizar um desejo mas não estão dispostas a suportar as consequências dele. Se não intervimos a tempo, o capricho se torna a regra; e todo o irracionalismo da vontade de poder vem à tona como um vício, um hábito confirmado por inúmeros atos arbitrários concretos. O que no início parecia liberdade irrestrita se torna escravidão, e a pessoa não consegue mais dar unidade à sua vida. Na ausência de um princípio racional, da consideração inteligente das circunstâncias e das normas de experiência, a pessoa se vê dominada por impulsos caprichosos e sem pistas de como proceder. Se um governo se torna caprichoso, temos o mesmo fenômeno escrito em letras maiúsculas: a loucura coletiva sob a forma da tirania. O governo então não mais consegue se justificar perante o tribunal da razão (ou melhor, da razoabilidade, da moderação e do manejo correto da lógica argumentativa), e por isso impõe o que ditam os seus interesses imediatos.

domingo, 1 de agosto de 2010

...o cerne da relação das células privadas para com o Estado reside na fome de segurança. Se um dia notássemos – não estou afirmando que notamos, mas se – que nossa sopa de ervilhas se tornou mais rala, que nosso sabão não presta, que nossas residências estão em ruínas sem que alguém se preocupe com isso, iríamos protestar então? Não, pois sabemos que o bem-estar não é um valor em si mesmo, que nossas renúncias servem a um objetivo maior. E se descobrimos barreiras de arame farpado em nossos caminhos, não nos resignamos a estas limitações da liberdade de movimento sem protestar? Claro que sim. Sabemos que tudo isto acontece para a preservação do Estado, para evitar sabotagens. E se um dia chegássemos a achar que todas as ocupações do tempo de lazer devem ser sacrificadas ao indispensável treinamento militar, que os incontáveis luxos supérfluos que faziam parte da nossa educação devem agora ser deixados de lado em prol de uma imprescindível formação de cada um como trabalhador especializado nos setores absolutamente fundamentais da indústria, teríamos então razões para protestar? Não, não e não! Nós reconhecemos e aplaudimos o fato de que o Estado é tudo; o indivíduo, nada. Admitimos e aceitamos que a maior parte da assim chamada “cultura” – excluo aqui os conhecimentos técnicos – constitui um luxo para tempos em que nenhum perigo ameaça o Estado (tempos que talvez jamais voltem). Resta então a pura subsistência e a cada vez mais desenvolvida organização policial e militar. Este é o cerne da vida do Estado. O resto é secundário.

Kalocaína

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