Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de março de 2010

POESIA

Minuano

Augusto Meyer



Esse vento faz pensar no campo, meus amigos,
Esse vento vem de longe, vem do pampa e do céu.

Olá comprade, levanta a poeira em corrupios,
Assobie e zune encanado na aba do chapéu.

Curvo, o chorão arrepia a grenha fofa,
Giram na dança de roda as folhas mortas
Chaminés botam fumaça horizontal ao sopro louro
E a vaia fina fura a frincha das portas.

Olá compadre, mais altoi, mais alto!

As ondas roxas do rio rolando a espuma
batem nas pedras da praia o tapa claro...
Esfarrapadas nuvens nuvens galopeiam
No céu gelado, altura azul.

Este vento macho é um batismo de orgulho.
Quando passa lava a cara, enfuna o peito,
Varre a cidade onde eu nasci sobre a coxilha.

Não sou daqui, sou lá de fora...
Ouço meu grito gritar na voz do vento:
-- Mano poeta, se enganche na minha garupa!

Comedor de horizontes,
Meu compadre andarengo, entra!

Que bem me faz o teu galope de três dias
Quando se atufa zunindo na noite gelada...

Ó mano
Minuano
Upa upa
Na garupa!

Casuarinas cinamomos pinhais
Largo lamento gemido imenso, vento!
Minha infância tem a voz do vento virgem:
Ele ventava sobre o rancho onde morei.

Todas as vozes numa voz, todas as dores numa dor,
Todas as raivas na raiva do meu vento!
Que bem me faz! mais alto, compadre!
Derruba a casa! me leva junto! eu quero o longe!
Não sou daqui, sou lá de fora, ouve meu grito!

Eu sou irmão das solidões sem sentido...
Upa upa sobre o pampa e sobre o mar...

segunda-feira, 1 de março de 2010

Os Parasitas

Os Parasitas - Guerra Junqueiro

No meio duma feira, uns poucos de palhaços
andavam a mostrar, em cima dum jumento
um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriôes, hipócritas, devassos,
exploravam assim a flor do sentimento,
e o monstro arregalava os grandes olhos baços,
uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,

eu lembrei-me de vós, funâmbulos da cruz,
que andais pelo universo, há mil e tantos anos,
exibindo, explorando o corpo de Jesus.

Colaboradores