Esse arranjo pode parecer estranho. Temos aqui circuitos inatos cuja função é a de regular o
funcionamento do corpo e assegurar a sobrevivência do organismo, a qual é alcançada pelo controle das operações bioquímicas internas do sistema endócrino, do sistema imunológico e das vísceras, assim como pelos impulsos e instintos. Por que deveriam esses circuitos interferir na modelaçãodaqueles mais modernos e plásticos, responsáveis pela representação de nossas experiências adquiridas? A resposta a essa importante pergunta está no fato de tanto os registros das experiências como as respostas a elas, para serem adaptativos, deverem ser avaliados e modelados por um conjunto fundamental de preferências do organismo que considera a sobrevivência o objetivo supremo. Parece que, devido a essa avaliação e modelação serem vitais para a continuidade do organismo, os genes especificam também que os circuitos inatos devem exercer uma influência poderosa sobre virtualmente todo o conjunto de circuitos que podem ser modificados pelaexperiência. Essa influência é desempenhada, em grande parte, por neurônios ”moduladores” que atuam nos circuitos restantes. Esses neurônios moduladores estão localizados no tronco cerebral e no prosencéfalo basal e são influenciados pelas interações do organismo que ocorrem a todo momento. Eles distribuem neurotransmissores (tais como dopamina, norepinefrina, serotonina e acetilcolina) por regiões dispersas do córtex cerebral e dos núcleos subcorticais. Esse inteligente arranjo pode ser descrito da seguinte maneira: 1) os circuitos reguladores inatos têm como função principal a sobrevivência do organismo e, em conseqüência, são inteirados do que está acontecendo nos setores mais modernos do cérebro; 2) o aspecto bom e mau das situações é-lhes regularmente assinalado; e 3) eles expressam a sua reação relativa a essa qualificação influenciando a forma como o resto do cérebro é modelado, de modo que esse possa apoiar a sobrevivência da maneira mais eficaz possível.
Assim, à medida que progredimos da infância para a idade adulta, o design dos circuitos cerebrais
que representam nosso corpo em evolução e sua interação com o mundo parece depender tanto das atividades em que o organismo se empenha como da ação de circuitos biorreguladores inatos à medida que os últimos reagem a tais atividades. Essa abordagem sublinha a inadequação de
conceber cérebro, comportamento e mente em termos de natureza versus educação, ou de genes versus experiência. Nossos cérebros e nossas mentes não são tábula rasa quando nascemos. Contudo, também não são, na sua totalidade, geneticamente determinados. A sombra genética tem um grande alcance mas não é completa. Os genes proporcionam a um dado componente cerebral sua estrutura precisa e a outro componente uma estrutura que está para ser determinada. No entanto, a estrutura a ser determinada só pode ser obtida sob a influência de três elementos: 1) a estrutura exata; 2) a atividade individual e as circunstâncias (nas quais a palavra final cabe aomeio ambiente humano e físico, assim como ao acaso); e 3) as pressões da auto-organização queemergem da extraordinária complexidade do sistema. O perfil imprevisível das experiências de cada indivíduo tem realmente uma palavra a acrescentar ao design dos circuitos, tanto direta como indiretamente, pela reação que desencadeia nos circuitos inatos e pelas conseqüências que tais reações têm no processo global de modelação de circuitos.
Afirmei no capítulo 2 que a operação dos circuitos de neurônios depende do padrão de conexões
existentes entre os neurônios e do poder das sinapses que estabelecem essas conexões. Num
neurônio em estado de excitação, por exemplo, as sinapses estimuladoras facilitam o disparo,
enquanto as sinapses inibidoras fazem o contrário. Neste momento, posso dizer que, devido a
diferentes experiências causarem a variação da potência sináptica dentro e através de muitos
sistemas neurais, a experiência modela o design dos circuitos. Além disso, em alguns sistemas, mais do que em outros, as potências sinápticas podem alterar-se ao longo do período de vida do indivíduo para refletir as diferentes experiências do organismo e, como resultado, o design dos circuitos cerebrais continua também a alterar-se. Os circuitos não são apenas receptivos aos resultados da primeira experiência, mas repetidamente flexíveis e suscetíveis de serem modificados por experiências contínuas.
domingo, 29 de junho de 2008
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